terça-feira, 23 de junho de 2020

Em séries



Melhor ir à igreja e à boate
Pela praia e nos retiros
Espiritualmente largo
“Saber do que gosta,
sem gostar de tudo que se sabe”.


Também sonho com Ícaro
Se posso me ver voar alto
Se aterrisso sem destino
E carregando desatino
Sou por dentro justo e amplo.

Nas andanças dos ciganos
Nos dissabores do engano
A paixão é uma aposta
Uma proposta de amar
E possuir com egoísmo.

O amor não é deste mundo
Apenas aparências pululam
E o incondicional não existe
Nem persiste nas intempéries
As ondas vêm em séries
Os cataclismos também.



(Cristiano Jerônimo – 22062020 – 11h09)

sábado, 20 de junho de 2020

Geração mimeógrafo


Ao Movimento dos Escritores Independentes de Pernambuco

Se vocês 
não nos editam,
a gente tira cópia.

sexta-feira, 19 de junho de 2020

Marshmallow




Nas pontes e avenidas
aterros e asfaltos
por baixo da cidade
e na classe baixa do alto.

Chiclete, Mentol e coração
no amor que não fizemos
naquilo que nós crescemos
na fragata com nossos canhões.

Hoje o encanto continua na floresta
na água encantada do brilho do mar
o profeta infantil quer que você veja
a morte inconteste e vã que é tão certa.

Os olhos matreiros dos coturnos
o irrepreensível gosto do beijo
nos luares mais belos e noturnos,
penso no que eu quero mesmo.

Pacata, quieta, serena
E toda ao contrário também.
Benévola, não é de ninguém.

Na sua alma tem um peito
Em seu peito, uma canção
E ainda o medo das feras.

Mas sempre arruma um jeito
Em seu peito, ouve uma canção
Me faz feliz como marshmallow.




(Cristiano Jerônimo – 190620 – 8h41/9h02)


sábado, 13 de junho de 2020

Miscigenação


Sigo o meu caminho
Como drusas de cristal
E o sangue negro derramado.
O valor do homem amarrado
É bem menor que um voo livre
Se a igreja nunca foi abolicionista.

Sigo o meu destino
Como quem vai para uma festa
Procurando a verdade nos sinais
Decifrando pedras rupestres e portais
De passagem pela tribo que habita a floresta
Se a igreja só foi catequizadora, nunca foi indigenista.

Pego minha vereda, candeeiro aceso, cachimbo
Um português com um bigode a gritar aos lados
Um intelectual na taberna olhando para todos os cantos
A donzela mandando as cartas nos navios do além-mar
Os portugueses eram brancos e detinham todo o poder
E a igreja, ainda assim, sempre teve um olhar tão lusitano.




(Cristiano Jerônimo – 09062020)



sábado, 6 de junho de 2020

Respiradores mecânicos


Foi o povo quem mais sentiu
Foi o povo do querido Brasil
Senzalas de idosos bengalas
Sorrisos generosos de abrigos.

Ansiedade típica de pandemia
Do outro lado, o poder da criação.
Quem sabe que vive, deixa pra lá
Porque este ano não tem o São João.

Dizem: este ano é muito atípico
Mais atípico que a corrupção
De políticos, trens desgovernados
Que desviam respiradores
Dos mortos, dos necessitados
Na campanha juram o coração.



(Cristiano Jerônimo – 06062020)

quarta-feira, 20 de maio de 2020

Sucessão planetária




Um dia por vez ensina que a vida pode ajudar a nos ensinar muita coisa. A nova peste nos pegou de calças muito curtas e a morte do corpo ronda o terreno dos nossas lares pelo mundo afora. Sitiados na bênção do aprender, entender e sentir, as coisas boas começam a existir, a gente começa a aprender a ouvir os sons mais baixos que emanam dos grotões, das falésias e do céu vitrificado dos gases dos balões. Como a fêmea, que em atitude inata pôs seus ovos, defendeu e alimentou seus filhotes, que aprenderam a voar. Mesmo que algum deles viva, inocentemente, preso numa gaiola. Piedade! Não podemos ainda deixar de prestar atenção na pancada do som das pegadas das formigas, que trabalham incessantemente para no inverno descansar e morrer outra vez. A vida é assim, neste sentido.


(Jerônimo - 200520)

sexta-feira, 3 de abril de 2020

Timor






Como é fácil o timor da sobrevivência.

Um fantasma microscópico
Desafia o mundo e sua ciência
Paciência, nem tudo vai acabar.

O planeta se cansou da gente
Está só trocando suas sementes.
Para alguns será muito fácil plantar
Outros muitos não irão nem colher.

Ah! Como é fácil se enganar...
Ah! Como é fácil se enganar...
Se as escolas não ensinam as crianças
Se o mercado de consumo de esperanças
Faz a gente hesitar...

A pleura, boca, fossas nasais, faringe
Afastem esse mal da nossa laringe,
Das nossas traqueias e brônquios carbonizados,
Bronquíolos e alvéolos,
Não nos deixem sufocados...

Ah! Como é fácil se enganar...
Ah! Como é fácil se enganar...
Se as escolas não ensinam as crianças
Se o mercado de consumo de esperanças
Faz a gente hesitar...



(Cristiano Jerônimo – 03042020)

domingo, 29 de março de 2020

Poema Free 2



o mito das cavernas
mais profundas;
nossas almas de mangue
os asfaltos de sangue
e um mergulho no além.

e eu ainda tenho que cortar
cebola, lágrimas e ardência
para ver a luz das ideias
despertar na consciência.

no fundo das suas
asas de mel e aveia
ala toda a inteligência
clareia bem o juízo de valor
a infalível escuridão do dia
e a nossa eterna indulgência.



(cristiano jerônimo – 29032020)

sábado, 21 de março de 2020

quarentena


controle social
guerra comercial
conflito “espiritual”.

quem ganha e quem perde,
na explicação do que existe no cerne,
a nossa própria consciência é que vai julgar.

a gente vai se sentir mal e depois voltar bem mais fortes
mais solidários e respeitosos, complacentes com o próximo
não deixaremos que forças escusas roubem nossas pequenas alegrias.

não iremos admitir que o turvo negro se aposse dos nossos pequenos soldados
será uma verdadeira guerra santa na qual todos estaremos leves, livres e desarmados
sorrir é o que nos resta nesta festa ilusória das garras da terra onde estamos aprisionados.




(cristiano jerônimo – 21032020 – 15h36)

Com a tez fanada sob as fechaduras

Nem tudo posso Tenho o que tem Quantos milhos Na roça que vem Pelas paredes Dos prédios Dentro de nós Avenida nua Beco de ru...