quinta-feira, 10 de novembro de 2022

Bem tranquilo



Das sete flores que ganhei verão passado

Uma disse que as cores não são artificiais

As altitudes onde brotam os olhos da água

Nas rodovias que sempre levam às capitais

Havia um pedaço paradisíaco e intocado

Longe demais de supostas traições e mágoas

Seguia-se os passos de um caminho iluminado

Onze vezes constatei que sou humano e amado

Vinte e duas vezes pesquisei o que isso significa;

Amor no coração é como um bálsamo de luz

Magnetiza toda a força, aquilo que nos conduz

(As igrejas batizam e santificam falsos profetas)

Mandam queimar todos escritos dos poetas

Alegando atentado ao pudor da posta sociedade;

Eu também guardei a companheira ao meu lado

Afastei de quaisquer maus bocados e iniquidades

O sol passou o ano se pondo num lugar diferente

Movimentos involuntários do alto da nossa mente

Do verso sem nenhum prumo e descomprometido

De quem fala a todo o mundo sem fazer alaridos

Dormia um jovem procurando estar mais tranquilo.


(Cristiano Jerônimo - 10112022)

segunda-feira, 7 de novembro de 2022

A labuta sem apoio



Na roça do tempo, um menino

Em tempo de fartas plantações

Espelho da visão da consciência

Olhando para o céu das ilusões.

 

Em êxodo, pelo Brasil e afora

Saídas muito altas sem ter rei

Evaporando H2O entre horas

Eu esqueci o pouco que eu sei.

 

O tempo nada mais é

Do que a expansão do espaço

Embora o espaço

Dependa da força do tempo.

 

Anfilófia juntava algodão para candeeiro

As irmãs se foram com a força do destino

As ilhas inabitadas, proibidas nesta ida

A coragem mais profunda e o firmamento.

 

Sem água, sem lavoura, sem gado gordo

O sertanejo vive da própria resistência

Não quer nenhuma esmola de assistência

Apenas condições de o ano todo trabalhar .

 

 

 

(Cristiano Jerônimo – Recife, 7 de novembro de 2022)

sexta-feira, 4 de novembro de 2022

Aflora Flora



 Para Flora

 

A flora flora quando chove no sertão

Flora verdejante nos biomas escondidos

Sob a curiosidade dos amores que vão

Seres semelhantes que foram escolhidos

No altar de deuses meigos e esquecidos

Nas vastidões dos céus enternecidos

Salva o verde que da chuva é a Flora.

 

A mañanita dos campos e a aurora

Os açudes mais bonitos da terra

Onde nos oceanos a água encerra

Na nossa terra não existe sermão

Mas folhagem da flora que aflora

E Flora irradia toda a sua beleza

Com amor, paz, saúde e sutileza.

 

O mundo novo da luz é tão possível

O homem é que parece impossível

Alimentando um sistema não crível

Salve as ladainhas que cantarmos

E o que a flora leva a fome embora

Todos os vegetais que exalam agora

São do futuro que nos espera lá fora.

 

 

(Cristiano Jerônimo – Recife – 02.11.2022)

quinta-feira, 27 de outubro de 2022

Ilusão sem cor


Estado letárgico

Um ar de cinema

Voltando o filme

Retorna ao play

Penso que sei

E fiz diferente

Um dia, dois...

Estágios da vida

Estados de espírito

Onde reside o amor

O mais verdadeiro

Cinema da freguesia

Com um ar espantado

Uma canção de ninar

Vendo a brisa do mar

Suave, plena Nazaré

No ar de uma máquina

Flutua a alma insípida

Um corpo são, inodoro

E uma ilusão sem cor.

 

                                                                        (Cristiano Jerônimo – 27102022) 

terça-feira, 25 de outubro de 2022

Os piratas*


Deita teu corpo cansado

Relaxa que o tempo

Constrói armadilhas

Estranhas

E a vida inventa

Os fantasmas

Que vem lhe assustar.

 

Tenta esquecer a agonia

E a dor do passado

Empilhe as tristezas

Por sobre o costado

E o peso já morto

Atires no mar.

 

E não tenha medo

Das sombras

Porões e cadeias

E o medo das vagas

Imensas

Que envolvem as sereias.

 

Nem as traições e motins

De governos tiranos

Que arrasam os intentos

Nos aprisionam

Aos mastros quebrados

Das embarcações.

 

Sem se abater

Com o estremeço

Das grandes procelas

Da águas das ondas

Quebrando as janelas;

Junte-se aos homens

E cante canções.

 

A honra do sol e do sal

Lavada de sangue

As bússolas

E as cartas rasgadas

E a terra tão longe...

As conchas, os peixes

E polvos são nossas medalhas

E a grande riqueza

Das nossas batalhas

As glórias da vida

Nos fazem cantar.

 


* (Lula Côrtes – 1996)

quinta-feira, 20 de outubro de 2022

Fantasias da natureza



O voo dos colibris metálicos e verde azulados pairando e bicando as fêmeas das flores, sugando o esplêndido néctar que nasce da vida, me fez pensar na vantagem de ser pássaro e na desvantagem também. Primeiro, eu tenho medo de altura. Os mais altos gaviões que vi voavam muito alto. Acho bonita a missão dos pássaros, das abelhas e de outros insetos que são escola para a vida inteira em sociedade. As formigas respeitam a colmeia e não ousam adentrar no enxame. Uma taça de vida num lugar agradável transformou-se num imbróglio. Foram os piratas da terra e os piratas do mar. Foram imperadores tiranos. Uma ave pousa para beber. O que fizeram com o planeta? As arraias morrem entaladas de plástico nos corais. Coco gelado na beira da praia, canudo. Eu não tenho nada com isso. Mas se for pássaro, terei que acordar às 4h da manhã, voar a maioria do tempo, quilômetros, até umas 17h, procurando um lugar para dormir. Afinal, nem todos os pássaros têm um ninho. Ninhos são diamantes somente antes de aprendermos a voar, porque no ar está a missão de bater as asas com afinco sem sair da rota. Não nego a parte tranquila da vida de um passarinho (todos parecem animados, menos a coruja que passa a noite acordada). Vivem comendo aqui e ali, passeando no vento de um destino diário. Contudo, com a eterna paranoia de viver ansioso fugindo de outros seres animais, do homem terrível. Fosse eu defender pombo. Jamais. Odeio. Mas nunca os matei. Já as garças são todas iguais. Você vai sempre confundir uma com a outra. Disputam com os anuns os carrapatos do gado da pastagem serena. É que nem o gato. Respeito, mas não deixem o seu gato vir se esfregar na minha perna... É a mesma coisa que me mandar embora. É isso mesmo. Também tenho medo de rato e de cachorro brabo. Quem vê diz que eu não sou macho. Até que uma barata saia voando para cima de mim. Acho que vou de pássaro e serei um galo de campina, de terno e gravata, com um lenço saliente no bolso. Poderei entrar na igreja, visitar os distantes. Ninguém acreditava que era eu. Não havia como convencê-los que me transformei num pássaro. Foi quando pintou a oportunidade de trabalhar como estivador ferroviário. Neguei o cargo e disse que poderia fazer a segurança da carga durante todo o seu trajeto. Oras, eu... um portento no voo... vou ficar agora carregando peso. Eu sou um passarinho, rapaz!

 

(Cristiano Jerônimo – 20102022)

terça-feira, 18 de outubro de 2022

Paramatma


Dentro do coração

Há um ponto de Deus

A parte Divina do ser

O que espera de nós

Muita iniciativa e ação

Diante da nossa inércia

Da nossa indolência

Para ajudar os outros

E, assim, se ajudar

Dentro do seu peito

Paciência e respeito

Parar para pensar

Que dentro do nosso coração

Há um ponto que nos interliga

À fonte sagrada do amor

Por mais infinita que seja

Nos alcança e irá alcançar.

 

 

(Cristiano Jerônimo – 18102022)

Nada no peito



Aonde a vida te leva sua direção

As aves planam com o ar quente

A demora que custa um sermão

A gente se transforma em gente.

 

Os cabelos são os outros pelos

Cujas penas, a ave unta a óleo

Para atravessar os continentes

Conhecer e ficar bem de olho.

 

O homem criou a falta de vida

E sempre causa tantas feridas

Máquinas trabalham caladas

Fazendo o destino de la plata.

 

E não importaria como fosse

Se o homem tivesse pérolas

Diamantes e o mel mais doce

Ele mandaria tudo pelos ares.

 

O homem vai e desconstrói

E segue a saga construindo

Iludido em seu vil desatino

Passa dias inteiros sorrindo.

 

Nem justifica a vã violência

Num dito estado de direito

Políticos de excrescências

Pessoas sem nada no peito.

 

 

 (Cristiano Jerônimo – 18102022)

quinta-feira, 13 de outubro de 2022

Comportamental



De mim mesmo refém

Não tem culpa ninguém

Menino novo é neném

Quem é esse alguém?

 

Moço, digo novamente

O animal aqui é a gente

Gente que causa e mente

Física e espiritualmente.

 

Nada mais do que sofrido

O lado bom está resolvido

Medo de não ser entendido

Precisamos ter mais ouvidos.

 

A solidão então se completa

Faz caminhar por mil léguas

O bom ânimo faz a sua festa

Se for entrar, ligue a sua seta.

 

Ninguém tem mais ninguém

Propriedade não existe no além

Já me disse um anjo torto, caído

Que de tão louco e aturdido

Não percebeu o colorido.

 

Só a solidão dos barcos parados

Sempre usados quando necessário

E deixados ao mar, vento e chuva,

Como flutuantes e bem solitários


Vegetais que vivem no fundo do mar

Na terra, eu sou planta que anda 

No turbilhão das ondas quentes

Na velocidade de cem cavalos

O tempo é um príncipe gentil

Que trabalha infinitamente...

 

 

(Cristiano Jerônimo – 13102022)

 

Flabelos, clarabelas e parabelos



Tudo índio...

Tudo bom.

Cigarros

E bombons.

 

Meia noite

Tem batom

Tambores

Clarabelas

Bailando

Os amores

Nos gramados

Dos jardins

Projetados

No Cinema

Na Poesia,

Baratchos.

 

É o Sertão

De Pernambuco

Na veia

Seca.

Dos olhos

Do sol

Escorre

Água.

 

No rosto

Da lua

Escura,

O eclipse

Apenas

Escondeu-a.

 

O gato de marte

Lenda da morte

Há vida por aí

Reinando bela

A vida aqui

Não é aquela.

 

 

(Cristiano Jerônimo)

sexta-feira, 7 de outubro de 2022

Dos que tiram a paz



Quando canta o vivi

Alguém está para chegar

Quando o vento frio

Sopra do Leste

A terra vai se molhar.

 

Terra molhada, êh!

Terra que brota

Com água na grota

Terra seca, ai!

Não aguento mais.

 

Mais um inverno seco

Sem água nem pasto

Sem condições de brotar

O cabra tem que ser macho.

 

Chegou a chuva no telhado

Para mostrar o que lhe falta

Pelo homem desmatado

E a sua atitude tão ingrata.

 

De receber tudo de graça

E acabar com a fonte do viver

Não pode ver uma mata

Que mata a mim e a você.

 

São estúpidos e mercenários

Sonhadores do mal que se faz

São os mais homens ordinários

Matam de fome e tiram a paz.


 

(Cristiano Jerônimo – 07102022)

Com a tez fanada sob as fechaduras

Nem tudo posso Tenho o que tem Quantos milhos Na roça que vem Pelas paredes Dos prédios Dentro de nós Avenida nua Beco de ru...