sexta-feira, 17 de junho de 2022

Completude



A gente tem que acreditar

menos no que a gente pensa.

 

Muitas vezes a gente tenta

Fazer do distorcido, realidade.

 

As vezes é preciso desconfiarmos

de nós mesmos, bem de verdade.

 

Pois não sabemos de onde vem

E que tem por trás do segredo.

 

Aquilo que a gente tem medo

Precisa ser encarado e visto.

 

Percebido como o exato é

O subjetivo é uma frequência.

 

Aonde uma sintonia sempre

Vai materializar alguma coisa.

 

De um grão até a infinitude

O Universo tem abundância.

 

A magnitude da nossa força

Às vezes traz-nos a completude.

 

 

(Cristiano Jerônimo – 17062022)

domingo, 12 de junho de 2022

As cores



O frio para mim

representa o fogo,

o que nos leva a buscar

a luz antes do inverno.

O frio, para mim,

é uma bola de fogo.

O frio do outro

não é igual ao meu.

Como as águas

não formam os mesmos rios,

o meu frio é aquático.

O meu calor vem das entranhas

do sol vermelho da paisagem

das rugas do rosto do céu sertanejo

as cores do frio são azul e branca

as cores do quente são encarnadas.

 

 

(Cristiano Jerônimo – 11062022)

domingo, 5 de junho de 2022

Oxalá!



A solidão dos poetas no metaverso

É infinitamente maior do que aqui

Embora a capilaridade tenha nexo

E eu possa estar aqui com você aí,

Bem longe dos carnavais de saudade

Recitar um soneto azul como Carlos.

 

O metaverso não comporta a poesia

Declamada, desafiadora e popular.

Brinquedos de literatura de cordel

Rodas de cantos para cirandarmos

Tribos de índios policrômicos vão

A paleta de cores do maracatu rural.

 

A batida rítmica do baque virando

Um samba de coco de roda girando

Uma avenida de barro no canavial

Um desfile sagrado de evoluções

As lanças furando o mal da cidade

Afoxés sagrados e as religiosidades.

 

Tambores que silenciam aos orixás

Pátio de São Pedro, Pátio do Terço

Largo de Santa Cruz e Imbiribeira

Bloco em Casa forte, na Tamarineira

Olinda junta tudo isso com bonecos

A imaginação sem limites e gigante.

 

Troças, blocos, clubes e mamulengos

Flabelos, estandartes e o saudosismo

O samba é de enredo, canção e coco

Pode pegar para ver se é mesmo oco

No éter do carnaval ninguém reclama

Todo mundo pensa no maravilhoso

Solto para virar os três dias de momo.

Oxalá!

 

 

(Cristiano Jerônimo – 05062022)




quarta-feira, 1 de junho de 2022

Dízima periódica da fé


As chuvas dos meus olhos

Que engoli na minha seca

Derramei meu coração

Para curar a nossa ferida

No alto do brejo molhado

Tangi o meu gado pra lá

E entre os automóveis

Fumaças pintam e matam

Soldados com uniformes

Que na guerra maltratam

Os que ainda vão matar.

 

Duelo primitivo do poder

Mitológico como a paz

Tal a Caixa de Pandora

Dizemos: vai melhorar!

Essa sina, chacina, gás

Líder orientado pelo mal

Falsos profetas e mais

Fascistas da igreja tal

Fascistas da igreja qual

Graças dadas em cash

Cada vez dízimos mais.

 

Dízima periódica da fé

Chuva, seca e poeira

Meus olhos castanhos

Os hábitos “estranhos”

Dos pobres de espírito

Como as suas pazes

Em tudo o que fazem

Tem algo para retornar

Somos goleiros da vida

Decidida nos pênaltis

Resultados só final da partida.

 

(Cristiano Jerônimo – 01062022)

terça-feira, 24 de maio de 2022

Máquinas de homens


Eu também tenho seus medos

Também não guardo segredos

Escrevo para me libertar e leio

Leio para ser aprovado na vida

Esta escola que nos é oferecida

Vai nos dar todas as alternativas

Até o sonho de não sermos nada

Que amansa quando vê lambança

O colonizador dentro do colonizado

O oprimido querendo o outro lado

É difícil se perceber sujeito de si

Peça do xadrez social e crenças

A face da independência parada

Passou a aprisionar ao consumo

Sem se importar com qual o rumo

Dinheiro, bala, pólvora e valentia

Acontecem à noite, morrem de dia

São homens que comem homens

Máquinas com vozes de máquina

Voraz apetite que não se acaba...

 

 

(Cristiano Jerônimo – 24052022)

segunda-feira, 23 de maio de 2022

Ilustrações em monotipia criadas pelo multiartista Lula Côrtes para dez poemas do livro Ribeira de Mar dos Arrecifes, do jornalista e escritor pernambucano Cristiano Jerônimo



recife de rua

 

vagueia um menino qualquer

qualquer rua...

matuta qualquer menino

vidrado na lua...

 

sobre a cidade

de água indecisa,

sob a verdade

crua e concisa

repousam as asas

da contradição:

do que é da terra de Deus

e que é de um mundo de cão.

 

Um rebanho de bichos do mato

                               ...meninos...

                               ...cidade...mata...

                               ...MENINOS...

 

 

a lama enrustida

 

atravessar o rio da vida

e a história da vida molhar;

pular de uma ponte comprida

e na lama da vida nadar...

 

compreender a lama o centro

e no centro da roda rodar;

desvirginar o segredo do tempo

e no vento da vida voar...

 

mergulhar no canal de entrada

no bueiro da esquina entrar

e ao sair, na bacia do pina,

pelo dique afora andar...

 

de um forte, o progresso

(ao forte das cinco pontas

e ao cais josé estelita)

 

                havia um forte

                há mais de cem anos atrás

onde um rio e o mar

formavam o cais.

- arrecifes de formas

concretas

                não morrem, jamais.

                Mas ali onde havia um

mangue,

                hoje são plataformas gerais;

                e o câncer urbano

                propaga-se...

                ...cada vez muito mais.

                assim, bosques indecisos

                vagueiam sobre um passado

esquecido

                enquanto a forma arquitetônica

de outrora é substituída pelo caos,

o que agora os homens

chamam indecentemente de progresso.

 

 

olhem agora

a contracapa do recife,

aquilo que escondem de ti

sob o arregalo dos teus olhos

assustados com os curumins do “mau”

saídos dos esgotos marisíacos de sal...



suicídio ao cais


surgia o coletivo

e ele descia.

meio claro chuva,

meio dia.

Absorto entendia

que dobrava uma esquina fria,

até a ponte que subia

a guararapes...

o jornal de ontem,

lia o diário, que esquecia

e atordoado ele seguia...

ele chorava, ele sorria.

cinco minutos

em cada praça

se despedia...

na 1º de março

sem companhia...

prosseguia, ainda,

a marquês de Olinda,

e, jogando-se do cais,

no mar ele morria...

(quantas coisas

o marco zero não presencia...)

 

dos mangues

 

eu sou da terra dos mangues,

dos sangues que cobrem nossos contraditórios asfaltos...

dos grupos que exalam o maracatu lá dos altos.

 

eu sou do lado urbano,

das retas e contornos dos prédios

que presenciam ou acabam o tédio

da arquitetura da cara do povo.

 

eu sou do lado rural,

das árvores seculares e florestas vivas,

das cerâmicas da várzea de francisco brennand.

 



menina de cais

 

uma mariposa

de cais,

gás...

aquática

cinemática.

movimentadamente

estática...

uma menina

que vagueia

o cais de zé

mariano, apolo

e santa rita.

presa ao cais

da alfândega

com seios contrabandos,

seu bando:

que bando?

uma prostitutinha

de cabelos de mangue,

uma menina de rua

é a nossa beleza;

brasileira Veneza...

 

 


recife: a tua carne

 

a tua carne é irrigada

pelos canais e rios de lama

além dos arbustos que encobrem

os sóis que refletem a gente.

 

o teu horizonte incerto é curvo

nas retas esquisitas da tua ilha do leite,

a tua ilha do retiro, joana bezerra,

um tiro nos coelhos

tuas ilhas...armadilhas...

são tuas veias dividindo teu tecido,

tua pele de lama, em tua cama me deito.

 

teu horizonte correto é reto

tanto quanto também incerto

e tuas águas, inevitavelmente, correm para o mar

nos corrupios esguios das mágoas que não vamos chorar.

 

teus pássaros turvos

os uivos noturnos

boêmios diurnos

mistérios que me fazem encontrar...

 

atlântida nem Veneza,

recife beleza,

paraíso infernal.

até o galo sai antes da aurora

na hora do carnaval...

 

 


Pontes

 

pontes, por onde andas?

sei que durante tantos anos

não permanecestes parada...

 

ponte, por onde falas?

sei que, apesar de muda,

não te resumes calada...

 

ponte, por onde nadas?

porque, apesar de morar neste rio,

nunca morrestes afogada...

 

ponte, por onde começas?

ponte, por onde terminas?

eu só sei dos ensinamentos

que tua travessia me ensina.

 

 

satisfação

(a antiga rio branco)

 

que pressa e risos

de um lado a outro das ruas,

das meninas vestidas

que, na verdade, são nuas.

elas vendem beijos e abraços,

pedaços de noite sem emoção.

anseiam, ao passo que abominam

o cansaço das noites condenadas

à prostituição...

talvez sim, talvez não

alguém possa satisfazer mecânica sua falta

e a sua determinação de se vender infeliz,

numa vibe de que qualquer trocado torna alguém mais feliz...

...

E ela diz: - levando comigo, freguês, seus segredos e ilusões,

Das quais tua alquimia solitária

Não te traz satisfação,

Levo tanto a maçã quanto o pão!


Texto: Cristiano Jerônimo

Ilustrações: Lula Côrtes

Lei de Amra


Quantos anos se passaram

Não se passou nem um ano

Os embarques atrasaram

Desembarcaram no oceano

Nas fístulas que ficaram

Vazaram do voo o plano

Feixes fatiados dos fatos

Realidade outra ao lado

Os passarinhos voaram

As coisas se transformaram.

 

Um bico de lacre viciado em jabuticaba

Um outro pássaro com as asas nas mãos

Não ligam juntar, porque tudo acaba;

Voa até quando parece estar no chão.

 

Quando os anos vieram e voltaram

Muita gente não estava mais lá

Nem a geologia fora conservada

E viram a Lei de Amra compensar

Devolver tudo em justas reações

Amargar consciência no coração

Ou andar no mais bonito pomar

De uma floresta com muita água

Onde decidiram tudo derrubar.

 

 

 

(Cristiano Jerônimo – 23.05.2022)

sábado, 21 de maio de 2022

Futuro incerto



Os homens constroem máquinas

Para substituírem eles mesmos

Até mesmo nas colheitas

Plantam o que não comem

Trabalhadores assim somem

Sem verba para o desemprego

A violência e o genocídio civil

A dificuldade de ter desapego

As plantas fabris da sua vida

Foram vendidas a 200 mil

Não existem brancos e negros

Apenas um leve desespero

Com o futuro incerto do Brasil.

 

(Cristiano Jerônimo – 21052022)

Com a tez fanada sob as fechaduras

Nem tudo posso Tenho o que tem Quantos milhos Na roça que vem Pelas paredes Dos prédios Dentro de nós Avenida nua Beco de ru...