segunda-feira, 19 de março de 2018

Apenas 56% dos brasileiros leem. Destes, somente 9% consomem livros de literatura e afins. 30% nunca compraram um livro sequer

Quando se trata de poesia, especificamente, os números são desafiadores para os escritores



* Cristiano Jerônimo

Premissa inicial. Vamos chamar de leitor aquela pessoa que leu, inteiro ou em partes, pelo menos um livro nos últimos meses. O não leitor é aquele que declarou não ter lido nenhum livro nos últimos três meses, mesmo que tenha lido nos últimos 12 meses. Na balança do ler e não ler, os resultados não são tão animadores, de acordo com a última pesquisa Ibope/Instituto Pró-Livro (IPL), Retratos da Leitura no Brasil. Essa é a quarta de uma série de quatro levantamentos iniciados em 2007 pelo IPL. No levantamento de 2007, 45% dos brasileiros não liam. Onze anos depois, se constata que evoluímos somente um ponto, porque agora ‘apenas’ 44% da população continua torcendo o nariz para a leitura. Em 2011, esse resultado ficou dividido exatamente ao meio: 50% e 50%. E com a margem de erro, continua tudo igual. Meio a meio. Somado ao fato de 30% nunca terem comprado um livro sequer, vemos que a realidade é mesmo preocupante e que precisamos implantar políticas de fomento à leitura e à escrita. E só a próxima pesquisa da série Retratos da Leitura no Brasil poderá nos revelar se evoluímos ou não na leitura. E se são eficazes as poucas políticas de incentivo e trabalho com a literatura, em particular a poesia.

MOTIVOS PARA LER
Entre os que leem, o IPL/Ibope constatou que as razões pelas quais a pessoa investe em leitura são as seguintes, por ordem de citações: gosto; atualização; distração; crescimento pessoal; motivos religiosos; livros didáticos; e por trabalho. Já os fatores que influenciam na escolha de um livro são: tema ou assunto; dicas de outras pessoas; autor; título do livro; capa; dicas de professores; e críticas/resenhas. No ranking das influências, as redes sociais aparecem com 10%, perdendo para o título do livro e a capa.


POR QUE COMPRA LIVROS?
“O ‘tema ou assunto’ influencia mais a escolha dos adultos e daqueles com escolaridade mais alta, atingindo 45% das menções entre os que têm ensino superior. Já a capa de um livro é o principal motivo de escolha na faixa etária entre 5 a 13 anos. Nas idades correspondentes aos ciclos da escolarização básica (ensino fundamental e médio) as ‘dicas de professores’ são mais influentes para aqueles que estão entre 5 a 10 anos de idade. Já o item ‘Blogs’, explorado em 2015, obteve menos de 1% das menções”, descreve a pesquisa.

LITERATURA AMARGA 9%
Quando a gente pensa na leitura da literatura brasileira e estrangeira, os números são desastrosos, mas não devem ser desanimadores. Ao todo, 54% da nossa população não leem romances, contos ou poesias. E apenas 9% consomem livros de literatura. Observe que os maiores leitores (54%), no geral, são de jornais, revistas, internet, livros didáticos e profissionais.  Literatura, em sua maioria, pode se traduzir em romance, contos e poesia.

OS MAIS CITADOS
Bíblia, religiosos, contos, romance, didáticos (livros utilizados nas matérias do seu curso), infantis, história em quadrinhos, gibis ou RPG, poesia, história, economia, política, filosofia ou ciências sociais, ciências, culinária, artesanato, técnicos ou universitários (para formação profissional), saúde e dietas, biografias, e autoajuda são os gêneros mais citados, pela ordem.


POR QUE NÃO LÊ?
As principais razões alegadas para não ler são a falta de tempo, preferência por outras atividades, não ter
Iniciativas como as Bibliotecas Itinerantes dão acesso aos livros
paciência para ler, não haver bibliotecas por perto, acha o preço de livro caro, se sente muito cansado para ler; não gosta de ler, não tem dinheiro para comprar, tem dificuldades para ler, onde mora não tem um local onde comprar, não ter um lugar apropriado para ler, e falta de acesso permanente à Internet. Os entraves para a leitura, de acordo com os pesquisados, são: não ter paciência para ler, ler muito devagar, problemas de visão, ou outras limitações físicas, não ter concentração suficiente para ler, não compreender a maior parte do que lê. São dificuldades que emergem das escolas sucateadas, professores mal remunerados e sob pressão constante. Para todos os mestres e literatos, lancemos um desafio: lutar para que o percentual de leitores no Brasil supere, cada vez mais, a percentagem de brasileiros que não sabem o que é um livro.

O QUE FAZ NO TEMPO LIVRE?
Se a gente comparar o que os entrevistados falaram com relação à leitura com a forma como ocupam seu tempo livre, notamos uma pequena discrepância, em relação à falta de tempo para ler. Perguntados, o que gostam de fazer no seu tempo livre, os entrevistados respondem: assiste televisão, escuta música ou rádio, usa a Internet, reúne-se com amigos ou família ou sai com amigos, assiste vídeos ou filmes em casa, usa o WhatsApp, escreve, usa o Facebook, Twitter ou Instagram, lê jornais, revistas ou notícias, lê livros em papel ou livros digitais, pratica esportes, passeia em parques e praças, desenha, pinta, faz artesanato ou trabalhos manuais, vai a bares, restaurantes ou shows, joga games ou videogames, vai ao cinema, teatro, concertos. Os livros literários ficaram em 10º lugar.


FORMA DE ACESSO AO LIVRO
A forma como os livros chegam até a mão dos leitores é outro aspecto curioso do Retratos da Leitura no Brasil (4ª edição). 43% da população afirmam que compraram livros em lojas físicas e 23% que foram presenteados. Baixados na internet foram citados apenas por 6% dos entrevistados. Mas eis que parece que há uma contradição. No quadro demonstrativo que aponta quem comprou, pelo menos, um livro nos últimos três meses, 26% que sim e 74% que não compraram. Ou seja, um ¾ da nossa população não tem acesso à leitura. E vamos verificar há quanto tempo o entrevistado comprou um livro? 30% dizem, de cara, que nunca compraram.  Outros 18% compraram um livro há mais de dois anos. Um dado fundamental é saber onde as pessoas que leem compram seus livros. Vamos lá tentar destrinchar. A pesquisa conclui que 44% das pessoas compram em livrarias, 19% em bandas de revista, 15% em livraria on line. E 8% em sebos ou lojas de livros usados. Mas apenas 6% compram em Bienais ou Feiras de Livros. Fraco desempenho para estes grandes eventos literários.

FATORES QUE INFLUENCIAM A COMPRA
Entre os 56% dos brasileiros que leem, o IPL/Ibope revela, por ordem, os principais fatores que influenciam a compra de um livro. São eles, tema ou assunto (55%), recomendações de amigos ou familiares (20%), autor (19%), título do livro (17%), preço (16%), recomendações de professores (12%), a capa (7%), críticas ou resenhas (4%) Ilustrações (4%), Publicidade ou anúncio (2%), e editora (3%). Essas tendências, em números, levaram os analistas do Ibope Inteligência à conclusão de que o “Tema ou assunto” permanece sendo o fator mais citado pelos respondentes. Além disso, as recomendações de livros advindas de terceiros segue influenciando a escolha de um livro para compra: em 2015, os novos itens “Recomendações de amigos ou familiares” e “Recomendações de professores” foram citados por 20% e 12% dos entrevistados, respectivamente, enquanto, em 2011, o item “Dicas de outras pessoas” obteve 43% das respostas.

LENDO UM POUCO MAIS
E por ano? Quanto se lê por ano? Entre todos os entrevistados, o número de livros lido por pessoa, anualmente, sofreu pouquíssima alteração nos últimos três levantamentos. No ano de 2007, eram 4,7 livros por habitante/ano. Em 2011, este número cai para quatro livros por habitante/ano. Já em 2015, a leitura cresce para 4,96, sendo 2,1 lidos inteiro. O Nordeste é a região do Brasil que menos lê, com 3,96. O Norte, como as demais regiões, estão na frente do ranking.

Uma importante constatação pode ser objeto de um trabalho de promoção à leitura que deve estar na identificação de quem influencia mais o outro na busca por livros. A mãe ou responsável do sexo feminino e algum professor ou professora foram os mais citados na hora de sugerir. “A figura da mãe é bastante importante na influência da leitura, especialmente quando se comparada a influencia do pai ou de algum parente”, constata a pesquisa.

VOCÊ ESTÁ LENDO O QUÊ?
E quem lê, está ou estava lendo o quê? A mais atual pesquisa sobre a leitura no Brasil responde: Bíblia; Esperança; O monge e o executivo; Amor nos tempos de cólera; Bom dia Espírito Santo; Livro dos sonhos; Menino brilhante; O símbolo perdido; Nosso lar; Nunca desista dos seus sonhos; e Fisiologia do exercício. Importante notar que a cada pesquisa, os títulos vão mudando, embora alguns livros e autores permaneçam por muito tempo no ranking dos mais lidos. Entre os autores mais lidos, a configuração é o que segue: Augusto Cury, Chico Xavier, Gabriel Garcia Marquez, Paulo Freire, Benny Hinn, Ernest W. Maglischo, e Içami Tiba.

59% NÃO LEEM NADA
Vamos aprofundar o que o brasileiro diz que lê, na comparação entre as pesquisas de 2011 e 2015 (a mais atual). Em 2011, na pergunta “Você está lendo algum livro atualmente?”, 49% disseram que sim e 51% que não. Em 2015, a leitura infelizmente caiu. De um lado, 59% dizem que não leem e 41% que sim (8% a menos do que em 2011). E qual o último livro lido? Respostas: a Bíblia; Diário de um banana; Casamento Blindado; A Culpa é das Estrelas; Cinquenta Tons de Cinza; Ágape; Esperança; O Monge e o Executivo; Ninguém é de ninguém; Cidades de Papel; O Código da Inteligência; Livro de Culinária; Livro dos Espíritos; A Maldição do Titã; A Menina que Roubava Livros; Muito mais que cinco minutos; Philia; e A Única Esperança.

58% DA POPULAÇÃO NÃO SABE CITAR AUTORES
Variável, a lista dos autores mais lidos, naquele momento, configura-se da seguinte forma: Augusto Cury, João Ferreira de Almeida, Zibia Gasparetto, Padre Marcelo Rossi, Cristiane Cardoso/Cristiane e Renato Cardoso, Paulo Coelho, Allan Kardec, John Green, Chico Xavier, Ellen G. White, Machado de Assis, Fábio de Melo, Maurício de Souza, Edir Macedo, e Kéfera Buchmann. Mas tem aquele livro mais marcante, que impactou de alguma forma a vida do leitor. Esses títulos mais citados, pela ordem, são Bíblia, A Culpa é das Estrelas, A Cabana, O Pequeno Príncipe, Cinquenta Tons de Cinza, Diário de um banana, Turma da Mônica, Violetas na Janela, O Sítio do Pica-pau Amarelo, Crepúsculo, Ágape, Dom Casmurro, O Alquimista, Harry Potter, Meu pé de laranja lima, Casamento Blindado, e Vidas Secas. Interessante notar que na questão dos escritores mais conhecidos, 37% não citam nenhum autor e 21% não sabe/não respondeu. Fico à vontade para somar 37 com 21 e concluir que 58% da população não sabe sequer o nome de um autor famoso.


Os livros digitais ainda são muito pouco procurados
INTERNET & E BOOK & LIVRO DIGITAL
O levantamento específico sobre a leitura em meio digital tenta perceber agora a relação das atividades em geral que realiza na Internet. As respostas: trocar mensagens no WhatsApp ou no Snapchat; enviar e receber e-mails; acessar ou participar de redes sociais; blogs ou fóruns; escutar música; assistir vídeo; filmes ou TV online; trabalhar ou buscar informações sobre o trabalho ou profissão; jogar; e fazer compras.

No universo de leitores, a indagação sobre quais são as atividades relacionadas à leitura que realiza na Internet são fatiados entre uma gama de plataformas bibliográficas que, dentro da pesquisa das duas últimas pesquisas, um terço dos brasileiros (33%) afirma categoricamente que nunca usaram um computador. Em 2011, 54% afirmaram, espontaneamente, não acessar Internet. Já em 2015, são estes 33% dos entrevistados que disseram nunca terem usado a Internet. Isso é mais gente conectada. E o quê você faz na internet?  Um monte de coisas: trocar mensagens no WhatsApp ou no Snapchat, enviar e receber e-mails, acessar ou participar de redes sociais, blogs ou fóruns, escutar música, assistir vídeo, filmes ou TV online, trabalhar ou buscar informações sobre o trabalho ou profissão, jogar, e fazer compras, por último.

E por falar em Internet, você já ouviu falar em livros digitais? Em 2015 a resposta (52% nunca ouviram falar) foi mais animadora do que em 2011, quando 45% responderam que não. Atualmente, 41% já ouviram falar, mas só 26% afirmam já ter lido. Para quem já leu um livro digital, a pesquisa verifica os seguintes dispositivos como os mais usados: celular ou smartphone (56%), computador (49%), tablet ou Ipad (18%); leitores digitais, como Kindle, Kobo  e Lev  (4%). Chama a atenção o quanto os celulares, ou smartphones, despontam nesse cenário como principais dispositivos utilizados para a leitura digital e a baixa menção aos aparelhos específicos para esse tipo de leitura (os leitores digitais).

O pagamento pelo download de conteúdos é feito por apenas 15% dos entrevistados e outros 88% baixam gratuitamente na internet. E quais os títulos digitais mais lidos? Livros de literatura, como contos, romances ou poesias; livros técnicos, para formação profissional; livros escolares ou didáticos, ou seja, livros utilizados nas matérias do seu curso; religiosos/ Bíblia; autoajuda; e suspense/terror.

ESCASSEZ DE BIBLIOTECAS E LIVROS
A parte das bibliotecas e dos sonhados pontos de leitura merecem um capítulo à parte, uma vez que são alavancadores de participação no universo literário, enquanto os pontos de leitura estimulam a ler, escrever, ter senso crítico e autonomia social. Aguardem.

A 4ª edição (divulgada em 2016) da série de pesquisas promovidas pelo Instituto Pró-Livro, através do Ibope Inteligência, contou com o apoio da Associação Brasileira de Editores de Livros Escolares (Abrelivros), a Câmara Brasileira de Livros (CBL) e o Sindicato Nacional dos Editores de Livros (SNEL). O principal objetivo do levantamento é o fomento à leitura e a difusão e acesso ao livro. A missão, transformar o Brasil em um país de leitores.


Metodologia
Técnica da Pesquisa: Quantitativa.
Abrangência geográfica: Nacional.
Público alvo: População brasileira residente com 5 anos e mais, alfabetizada ou não.
Amostra: 5012 entrevistas.
Instrumento de coleta de dados: Entrevistas pessoais face a face domiciliares, com utilização de questionário elaborado de acordo com os objetivos da pesquisa.
Período de campo: 23 de novembro a 14 de dezembro de 2015.
Validade: de 2016 até a próxima pesquisa Retratos da Leitura no Brasil


* Cristiano Jerônimo é poeta e jornalista.

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