quinta-feira, 18 de junho de 2009

Publicitário amigo: “e agora eu sou médico!”


No momento em que “caía” o diploma de Jornalismo, via um favor do Supremo Tribunal Federal (8x1 votos), pensava em qual o tema eu escreveria para o Blog de Custódia, no Sertão do Moxotó de Pernambuco, a 342 km do Recife. Sem lembrar destes absurdos da lei – porque Lei que é Lei não é revogada, mas aperfeiçoada, discutida e debatida com todos os segmentos da sociedade – pensei em escrever aos mais jovens sobre uma carreira de sucesso, objetivo ao qual devemos perseguir a vida inteira. Ligo o som do carro na JC/CBN Recife, uma rádio que só toca notícias 24 horas por dia, no Recife. Ouço os comunicadores, que afirmam não serem formados em Jornalismo, comentarem a notícia do “fim do diploma” e emitir as mais variadas opiniões. Eu já ia dizer aos mais jovens de Custódia, sobretudo aos rapazes, que não ficassem apenas no curso de graduação; que fossem mais além nas especializações e começassem a estagiar na suas áreas o mais cedo possível. O período ideal de estágio contínuo para jornalismo, por exemplo, é de dois anos. O curso tem uma duração de oito semestres, quatro anos.

O que os donos de rádio e televisão do Sudeste, que estão pro trás desta ação, não sabem é que ninguém pode dar talento e paixão para fazer o que não for do seu feitio. Ora, ninguém faz um Ronaldo Fenômeno, um Adriano Imperador, um Zico ou um Pelé por indicação, a não ser Deus através da própria pessoa, com seu conhecimento e seu relacionamento. Sim, porque hoje eu sei o quanto é mais importante se relacionar do que saber ou conhecer na área profissional. Jornalista também é assim: não se faz da noite para o dia, além do mercado jornalístico pernambucano ser pouco tolerante com falhas, devido ao seu alto grau de qualidade e sua referência nacional, que é de destaque no Nordeste. Eu aproveito para abrir também os olhos dos mais velhos.

O fato é que, num país que precisa incluir e regulamentar uma série de profissões, as autoridades judiciárias máximas do Brasil desregulamentaram a profissão de jornalismo, sem nenhuma lei substitutiva para a que foi extinta. Faz medo, daqui a pouco, com todo respeito e reconhecimento aos profissionais que vou citar, protético virar dentista; curandeiro ser médico; despachante fazes as vezes de advogado; um negócio assim. Que faz, faz. Mas a qualidade é indiscutível, entre um profissional que cursou oito períodos de jornalismo, passou por uma banca ao final do bacharelado, estagiou e tem que passar no rígido crivo do mercado jornalístico, e o que se autodenominar jornalista a partir de agora. Hoje pela manhã um amigo gaiato disse a mim que agora, com a novidade, era jornalista. De imediato, um publicitário amigo sobressaiu-se: “e eu sou médico!”.

Gente, paciência, dizer que qualquer um pode ser jornalista porque todo mundo tem direito à liberdade de expressão. Todo mundo tem direito de propagar a idéia que quiser, mas não significa poder ser professor. Qualquer um tem o direito de cuidar da saúde, mas não de exercer a medicina. Cuidar da própria opinião é uma coisa. Cuidar da opinião do coletivo social é uma tarefa muito árdua, séria, isenta, científica, tênue, delicada. Confundir a liberdade de expressão com a permissividade do mercado jornalístico em contratar qualquer um que queira dizer qualquer coisa que quiser é um absurdo equívoco. Nos jornais e revistas já existem colunas, artigos, cartas e um trabalho de isenção e profissionalismo que reporta bem próximo do que o povo quer. Têm espaços abertos para quem não é jornalista.

Ontem, assisti a três bancas examinadoras de projetos experimentais impressos de conclusão do curso de jornalismo da Universidade Católica de Pernambuco (Unicap). Fiquei com pena dos avaliados (futuros jornalistas) antes de começar, por conta dos julgadores. Não porque eram carrascos. Muito pelo contrário. Eram três dóceis pessoas, porém exigentes profissionais de jornalismo impresso: Paula Losada, editora de Primeira Página (capa) do Diario de Pernambuco e assessora de Imprensa da Unicap; Diana Moura Barbosa, atual editora assistente do Caderno C (Jornal do Commercio), foi assessora de Imprensa de Ariano Suassuna; e Álvaro Filho, ex-editor de Esportes da Folha de Pernambuco e professor de redação da Unicap, com mestrado em Londres. A gente vê que no oitavo período, muitas vezes, o profissional ainda não está lapidado. Mas a gente vê quem tem jeito para a coisa, até porque a lapidação é eterna, diária. Um jornalista é fundamentalmente a união do processo teórico-prático laboratorial da universidade acrescida do período de estágio e evolução profissional. A nossa classe precisa criar o nosso Conselho Nacional de Jornalismo e levar a discussão para a sociedade. Os ministros que me perdoem, mas a sociedade precisa de uma Imprensa livre e atuante, com profissionalismo e formação acadêmica.

Cristiano Jerônimo
Jornalista e poeta, coordenador do Movimento Litera PE
Secretário de Comunicação Social de Camaragibe
Diretor de Imprensa da UBE-PE

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