quarta-feira, 20 de maio de 2015

Por dentro das coisas que não sabemos há um abismo do tamanho de nós mesmos

O que é que faz com que, com tantas pessoas amigas, nos sintamos sozinhos diante de nós mesmos e queiramos disfarçar. Que, depois de tantos ajustes sociais, é como se nada tivesse progredido ainda. Será a força dos artigos concretos em profusão com a das coisas que dizemos e sentimos mas não vemos nem tocamos? – É um pouco de tudo isso, pensou Alexandre, O Grande, Coisa! Rubro-negro leonino de Pernambuco mesmo. Sabia que a caixinha de surpresas era conduzida sempre pelo mágico da vez, aquele que detinha o segredo de um truque que os demais ainda ignoravam...

Os gramados estavam verdes e as fruteiras do cemitério bastante suculentas e doces. Símbolos de que “na natureza nada se cria; tudo se transforma”. Ritalina, agitada, disse simplesmente que tudo isso “vira bosta”.

Mariana foi ao chão. – Alex não queria exatamente o mesmo que a irmã de Natália.

Uma era machista assumida. A outra, sumida, nunca rachava as contas com os rapazes. Em tese, tudo ótimo. Em prática, praticamente nada. Era igual aos filhos dependentes que ousam se averbarem adultos apenas quando é para justificar atos contrários às expectativas dos pais. Não que os criadores biológicos não se equivoquem. Equivocam-se sim. Mas é que Alexandre havia concluído um raciocínio há cerca de 12 meses: - Numa reunião de dez, sendo nove incoerentes, o errado é o último que sobra, geralmente destoante. – O que fazer? Quem vai saber o que, ao final, vai prevalecer? O que justificaria a coerência de um ser humano? – Não sei. Pergunta ao Caetano. É bem mais fácil...

Mariana e Natália seriam incapazes de, depois do trio, arcarem 33%, cada, com as despesas de estadia. Não era por nada, mas porque já estaria pago, demais, duas mulheres para um homem. – Em toda a minha vida, eu só tive duas namoradas que faziam questão de dividir toda e qualquer despesa por dois. Fazia questão não. Ela brigava para rachar até a conta do motel. Em compensação, Adriano Malta havia sido cruel com Catarina. Se alicerçou nela, fez impulso de trampolim e pulou bem alto, deixando-a para trás, com o cachorro, os dois filhos e o travesseiro vazio. Jéssica trocava de homem como quem quisesse ficar com o último, embora cedesse sempre ao primeiro. Era difícil para Carlinhos, rapaz com referências rurais muito fortes e, ao mesmo tempo com um faro cosmopolita de fazer inveja a muito malandro carioca. – Ficava de butuca...

Nas telas...

KKKKKK era o que mais se ria na tela plana. Era fácil rir por trás do monitor. Aliás, o monitor separava os mais próximos e aproximava os distantes. Era estranho como a rede caía em instantes e voltava e prosseguia. Para os “óta” de plantão, Mariana pedia para ser solta do carro. Para os mais maduros pedia um zíper aberto para alegrá-la. A gramática de Domingos Paschoal Cegala sempre molda a nossa fala. – Vê se cala, aborígine. – Eu, isso aí? Mas o que é isso? Os estilhaços do estampido zoaram a cabeça de Montene. Ele mesmo morreu. Natália ficou rica e bebia uísque com Carlos Alexandre no Wiscritório Secreto.

KKKKKKK era o que mais se esperava do outro lado. As gargalhadas avessas e a solidão da estrada lhe ensinaram a amar todo o mundo. Mas era, ainda assim, infeliz. Respeitava, contudo, as suas limitações. Do contrário, já era.


(Cristiano Jerônimo)

Os mouros do sertão

Eu sou do solo do pé rachado. Onde hidratante não dá jeito. Sou pé trincado do próprio solo; Do colo da flor que brota no leito. ...