O que é que faz com que, com
tantas pessoas amigas, nos sintamos sozinhos diante de nós mesmos e queiramos
disfarçar. Que, depois de tantos ajustes sociais, é como se nada tivesse
progredido ainda. Será a força dos artigos concretos em profusão com a das coisas
que dizemos e sentimos mas não vemos nem tocamos? – É um pouco de tudo isso,
pensou Alexandre, O Grande, Coisa!
Rubro-negro leonino de Pernambuco mesmo. Sabia que a caixinha de surpresas era
conduzida sempre pelo mágico da vez, aquele que detinha o segredo de um truque
que os demais ainda ignoravam...
Os gramados estavam verdes e as
fruteiras do cemitério bastante suculentas e doces. Símbolos de que “na
natureza nada se cria; tudo se transforma”. Ritalina, agitada, disse
simplesmente que tudo isso “vira bosta”.
Mariana foi ao chão. – Alex não queria exatamente o mesmo
que a irmã de Natália.
Uma era machista assumida. A
outra, sumida, nunca rachava as contas com os rapazes. Em tese, tudo ótimo. Em
prática, praticamente nada. Era igual aos filhos dependentes que ousam se
averbarem adultos apenas quando é para justificar atos contrários às
expectativas dos pais. Não que os criadores biológicos não se equivoquem.
Equivocam-se sim. Mas é que Alexandre havia concluído um raciocínio há cerca de
12 meses: - Numa reunião de dez, sendo nove incoerentes, o errado é o último
que sobra, geralmente destoante. – O que fazer? Quem vai saber o que, ao final,
vai prevalecer? O que justificaria a coerência de um ser humano? – Não sei.
Pergunta ao Caetano. É bem mais fácil...

Mariana e Natália seriam
incapazes de, depois do trio, arcarem 33%, cada, com as despesas de estadia.
Não era por nada, mas porque já estaria pago, demais, duas mulheres para um
homem. – Em toda a minha vida, eu só tive duas namoradas que faziam questão de
dividir toda e qualquer despesa por dois. Fazia questão não. Ela brigava para
rachar até a conta do motel. Em compensação, Adriano Malta havia sido cruel com
Catarina. Se alicerçou nela, fez impulso de trampolim e pulou bem alto,
deixando-a para trás, com o cachorro, os dois filhos e o travesseiro vazio.
Jéssica trocava de homem como quem quisesse ficar com o último, embora cedesse
sempre ao primeiro. Era difícil para Carlinhos, rapaz com referências rurais
muito fortes e, ao mesmo tempo com um faro cosmopolita de fazer inveja a muito
malandro carioca. – Ficava de butuca...
Nas telas...
KKKKKK era o que mais se ria na
tela plana. Era fácil rir por trás do monitor. Aliás, o monitor separava os
mais próximos e aproximava os distantes. Era estranho como a rede caía em
instantes e voltava e prosseguia. Para os “óta” de plantão, Mariana pedia para
ser solta do carro. Para os mais maduros pedia um zíper aberto para alegrá-la.
A gramática de Domingos Paschoal Cegala sempre molda a nossa fala. – Vê se
cala, aborígine. – Eu, isso aí? Mas o que é isso? Os estilhaços do estampido
zoaram a cabeça de Montene. Ele mesmo morreu. Natália ficou rica e bebia uísque
com Carlos Alexandre no Wiscritório
Secreto.
KKKKKKK era o que mais se esperava do outro lado. As
gargalhadas avessas e a solidão da estrada lhe ensinaram a amar todo o mundo.
Mas era, ainda assim, infeliz. Respeitava, contudo, as suas limitações. Do
contrário, já era.
(Cristiano Jerônimo)