quinta-feira, 9 de junho de 2016

Éramos todos comunistas

Era a mesma estação de quando me mandaram para o colégio seminterno do Exército. 1985. 11 anos. Em casa, meu irmão me “obrigava” a ler um tijolo editado de mais de duas mil páginas intitulado A história do Partido Comunista da URSS, entre tantos outros. Explicava o que Geraldo Vandré queria dizer nas letras das canções. Foi muito bom. Era o período do início infindável da nossa redemocratização. Nesta época, a esquerda brasileira – mesmo dividida – se enrobusteceu na polarização da guerra fria e se preparou para a grande eleição de 1989. Matematicamente, o mundo se resumia numa fórmula temerária, na época: EUA X URSS, de batalhas silenciosas, até que a Rainha Elizabeth entrasse em cena.

No dia 9 de novembro de 1989, o muro caiu na Alemanha. O famoso Muro de Berlin, construído para separar os alemães ocidentais (capitalistas) dos orientais (comunistas). Rendia meses de capa da Veja o desmoronamento da outrora potência mundial. Inegável que a esquerda, em todo o mundo, representou o símbolo da resistência em prol de avanços sociais mais progressistas e alicerçados. Já no Reino Unido, a Rainha Elizabeth, que já se aproximara do então presidente da União Soviética, Michael Gorbachev conseguiu reunir, num jantar muito reservado, os presidentes da URSS e o então presidente dos EUA, George W. Busch. Um passo atrás para a potência comunista. A Perestróika (gerada em 1986) estava com cara de monstro.

Foram vencidas décadas de mão forte comunista, desde a Revolução Russa de 1917. No final da década de 1980, a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) estava esfacelada e ainda teria como sucessor de Gorbachev, o atrapalhado Bóris Yeltsin. Para, em todo mundo, os partidos sobreviverem, avançarem nos projetos unificadores dos elementos comunistas houve toda uma guinada, congressos, enquanto se lutava pela democracia com o lema de um governo igualitário, e de avanços para a sociedade, sobretudo as camadas mais necessitadas.

Diante do último suspiro da Albânia, restou a resistência. Instalou-se a Social Democracia no país e nunca mais, de 1985 pra cá, percebi que a discussão da implantação de um modelo Marxista, Leninista, Trotisquista de gestão, de governo esteja tramitando no parlamento nacional para mudar a Constituição Federal, quando ela diz apenas que somos um país capitalista. Há pensamentos de modelos de governo mais laicos. Agora, se virou utopia eu não sei, mas o pessoal está se movimentando cada vez mais.

Enfim, uma pergunta: ainda será possível que a maioria da nossa população possa governar também a minoria, ou se uma pequena minoria vai continuar governando a maioria e dominando o maior percentual da população como se fôssemos, nada além, de um grande problema para eles não resolverem. Não resolvem. E, dos livros ainda proibidos em 1985, herdei lembranças e construí sonhos tão sólidos que eu gostaria de não vê-los jogados fora, como se a esperança pudesse abandonar alguém assim tão fácil.


(Cristiano Jerônimo – 09.06.2016)

Um comentário:

  1. Uma boa retórica, relembrado os muros da nossa história, que ainda não foram derrubados.Lutar e acreditar em dias melhores! Érika poetisa

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